Onde Estamos(?)
O paradigma da geo-localização irrompeu furioso no virar do milénio. Violou tudo o que o dava pelo nome de dispositivo móvel, entrou pelas casas e instalou-se nos computadores (quase sempre utiliza a internet para o fazer, o que me leva a desconfiar que estão juntos nisto).
As profecias de 1984 (em 1949) esboçavam um futuro diferente, mais do género “estamos-te a ver”. Agora, “não te vemos mas sabemos onde estás”. As câmaras fotográficas têm GPS, os telemóveis têm GPS, os carros têm GPS, os gps’s têm GPS. Anda tudo preocupado em saber onde está, (ninguém) em saber para onde vai. Uma explicação teológica deste fenómeno poderia ser a seguinte: a população mundial aumentou, as emissões de gases para a atmosfera toldam-Lhe a vista e Ele, como bom pastor que perde o sono em cada ovelha tresmalhada, cria o GPS (God Positional System).
Aceite-se ou não esta explicação, o facto é que os sistemas de informação geográfica, aliados aos dispositivos móveis (quais órteses dos tempos modernos), estão a redefinir a nossa relação com o mundo, catalisando a reconciliação entre espaço físico e ciberespaço.
É largamente reconhecido o valor que os sistemas de informação geográfica (SIG), onde se incluem os de localização, têm para o estudo de populações e fenómenos naturais. No entanto, algumas das suas ferramentas foram adaptadas para utilizações em contextos mais pragmáticos. Um exemplo disso é o “GPS” (leia-se navegador GPS para automóvel) que se tornou objecto indispensável para um largo número de condutores, quase da mesma forma que o telemóvel, a internet, a televisão e a rádio se tornaram para os cidadãos das sociedades ditas avançadas.
A democratização destes recursos, outrora acessíveis somente a especialistas, fez emergir uma neogeografia caracterizada pela participação massiva de utilizadores, activos e passivos, não-especialistas na matéria. Dos geobrowsers, como o Google Earth, às aplicações cartográficas avançadas, como o KML, está acessível (muitas vezes gratuitamente) um rol de ferramentas que permitem ao utilizador publicar o seu próprio atlas, anotando as suas descobertas, as suas preferências (sociais, culturais, entre outras) numa plataforma de referenciação geográfica.
Outra potencialidade latente nesta tecnologia é a da comunicação interpessoal. Não é de estranhar, por isso, que as empresas de telecomunicações sejam as primeiras a lançar-se no mercado, acrescentando aos seus dispositivos (outrora utilizados para transmissão de mensagens), estes recursos tecnológicos.
Etimologicamente, comunicar significa “tornar comum”; e a partilha do mesmo espaço é, possivelmente, um dos mais antigos e primários denominadores comuns de um grupo. Em Portugal, um exemplo recente deste fenómeno é o Localizz da TMN (ferramenta indispensável a qualquer esposa insegura), no entanto, outras incursões, na minha opinião mais interessantes, têm sido dados no domínio das social networks, geoblogging e geojournalism.
Esta breve reflexão não pretende fazer futurologia, nem muito menos juízos de valor sobre tecnologias. A invenção de novas ferramentas, métodos e conceitos coloca o homem numa posição privilegiada, tornando-o detentor de novos conhecimentos que, como sempre, podem servir causas mais ou menos nobres, mais ou menos deploráveis. A arte, juiz privilegiado neste julgamento, está atenta ao desenrolar das operações. As exposições de media art incluem um número crescente de obras que incorporarem esta tecnologia, descontextualizando-a, expondo-a, ironizando-a e, mais importante, questionando-a.
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