Os comboios de Reich
Recentemente perdi estupidamente o concerto de um dos meus nomes favoritos na música: Steve Reich. Pelo que depois vim a ler – e para bem dos meus pecados – ele acabou por não apresentar uma das minhas peças favoritas e aquela que há muito que quero ver, ouvir e sentir ao vivo e a cores. “Different Trains” é, sem reservas, uma obra-prima e há tanto para dizer desta obra como da magia do comboio.
Desde miúdo que adoro viajar de comboio. Todos os anos e inaugurada a época de férias, lá seguia de comboio até ao Algarve onde iria passar boa parte do Verão. Pelo caminho havia tempo para muita coisa: fascinar-me e aborrecer-me com as paisagens, ler e reler BD e perder-me em pensamentos. O acto de viajar é propício para pensar numa série de coisas e até consegue ser - diria mesmo - inspirador. Invariavelmente, havia sempre alguém estranho na carruagem onde me encontrava. Uma personagem saída sabe-se lá de onde e que me distraía a tecer histórias sobre a sua origem e o seu destino. Contudo, entre essas personagens que por lá se encontravam, havia uma que sempre lá estava. Chegando oficialmente a terras algarvias, lá entrava comboio adentro um velhote marreco e desdentado que berrava algo como "Na qué, na qué" (tradução: “Não quer, não quer?”). Consigo trazia um cesto de figos e amêndoas e era um fartote vê-lo pois durante os breves momentos que levava a passar de uma ponta à outra da carrugem, metia-se com tudo e com todos. Um verdadeiro entertainer, dos puros.
Fora as pessoas que encontrava e conhecia, o próprio som do comboio era fascinante. Aquele ritmo maquinal das rodas sobre os carris, a mudança do som quando passava por um túnel ou o merecido descanso que se ouvia dos motores sempre que parava numa estação. Tudo isto era uma quase orquestra que Steve Reich também pressentiu durante a infância em que viajou com os seus pais. Lembro-me ter ficado verdadeiramente encantado da primeira vez que escutei “Different Trains”. Estava lá tudo. Se fizesse muita força até conseguia mesmo imaginar as tais personagens mais ou menos bizarras de que falava há pouco. Nem sequer faltavam as referências às paragens por onde o comboio passava nem às melodias que as paisagens inspiravam. Ainda que experiências e referências diferentes, Reich condensou, muito bem condensado, ao que soa andar de comboio. E de certa forma, também acabou por condensar parte da minha juventude.
Para o bem e para o mal, o comboio para o Algarve continua a soar ao mesmo de há vinte anos atrás e “Different Trains” continua a soar-me igualmente perfeito como da primeira vez que o escutei. Steve Reich, meu caro, quando voltarás tu a Lisboa?
Nuno Afonso | www.mesclasonora.com







































